Pelos idos de 1990, Everaldo
Nunes de Oliveira viveu os anos mais tristes de sua vida. Pouco tempo
depois de ser reformado, perde sua filha de 21 anos, vítima de
atropelamento. A partir deste acontecimento, ele deixou de querer realizar
atividades rotineiras como ir à rua ou entrar em elevador e passou
a ter medo de escuro. Só ia a algum lugar se tivesse companhia.
Sem saber o que estava acontecendo, Everaldo se via cada dia mais perdido.
Era a Síndrome do Pânico, um problema sério de saúde,
mas que pode ser controlado com o tratamento correto. (ver quadro)
“Se eu tivesse arma em casa, teria me matado. Eu sentia uma agonia,
achava tudo sem sentido. Não saía sozinho porque achava
que podia acontecer algo e não ter ninguém para me ajudar”,
relembra.
Os sintomas externos de um ataque de pânico geralmente causam
experiências sociais negativas como vergonha, estigma social,
etc. Como resultado disto, boa parte dos indivíduos que sofrem
de transtorno do pânico também desenvolvem agorafobia (medo
de estar em espaços abertos ou no meio de uma multidão).
Na época em que começou a apresentar os sintomas da doença,
ele tinha pouco tempo de reformado e se sentia mal ao saber, pela imprensa,
de casos sobre corrupção de policiais.
“Quando sabia notícia de policiais corruptos, ficava envergonhado,
aquilo me deixava arrasado porque nunca fui assim. Isso me fazia muito
mal também. Passei mais de um ano sendo acompanhado pela psicologia
para me livrar da vergonha de ter trabalhado num lugar com tantos desonestos”.
De cara com a Arte
Foram anos sofrendo, até que seu filho o convenceu a ir procurar
ajuda com a amiga Henriqueta Sassom, psicóloga e arte-terapeuta.
“Foi a minha salvação. A arte foi o que me trouxe
de volta a vontade de continuar vivendo. Quero que todas as pessoas
que passaram ou passam o mesmo que eu, saibam que esta doença
tem tratamento e que a arte pode ter papel fundamental para a cura.
”, afirma.
Desde então, Everaldo passou a freqüentar regularmente
o ateliê Espaço Livre, de Henriqueta,, em Niterói,
e se especializou em criar peças feitas com papel jornal, além
de pinturas e kirigami (técnica mista que utiliza dobradura
e cortes no papel).
Ele também resolveu fundar em 2002, junto com amigos, a ONG
Pro Arte Cultural de Capacitação e Cidadania, em Cabo
Frio, onde são oferecidos cursos de arte gratuitos para a comunidade,
como patchwork (retalhos), criação de brinquedos com
garrafas PET, borracha e feltro de pano. A ONG também montou
uma brinquedoteca em parceria com a Universidade Veiga de Almeida.
Os brinquedos ficam à disposição da criançada,
e são os alunos de pedagogia da Universidade que administram
o espaço. Quem estiver interessado, basta ligar para o telefone
(22) 2647.1923 e se informar sobre os horários. Os cursos são
gratuitos.
A arte também confiança a Everaldo. Depois dos cursos,
ele passou a fazer exposições, mas assume que tem certo
ciúme de suas criações. Já perdeu a conta
de quantas vezes preferiu não vender peças que gosta.
Durante uma exposição em Cabo Frio, ele se negou a vender
um poste feito todo de material reciclado a uma pessoa importante
da cidade.
“É uma das peças que mais me orgulho de ter feito.
Às vezes uma peça deu tanto trabalho pra fazer que eu
prefiro mantê-la comigo. Depois o dinheiro acaba e eu fico sem
o dinheiro e sem a obra. Meu objetivo com a arte não é
ganhar dinheiro, é recuperar minha saúde. Quero mostrar
que com material que ninguém quer mais, se pode fazer coisas
bonitas”, explica.
Se antes do tratamento, Everaldo era inseguro e sisudo, hoje em dia
ele faz trabalhos voluntários ministrando oficinas de arte.
“Não acreditava que um dia pudesse ensinar alguém.
A arte me fez crescer muito. Quando vejo uma pessoa idosa toda empolgada
porque conseguiu criar uma peça por causa do que ensinei, fico
feliz. Este é meu maior pagamento”, diz, emocionado.
Sua esposa, Adinete Silva de Oliveira, acompanhou toda transformação.
“Ele passou por um processo muito difícil, não
relaxava. Apesar de sempre ter sido criativo, ele não acreditava
no próprio potencial. Com a arte-terapia, ele se descobriu”,
diz a esposa.
Serviço
O ateliê Espaço Livre oferece cursos para arte terapeutas
e astrologia, além de oficinas de pintura, mosaico, canto,
papel machê, cartonagem, coral, etc.
Rua Dr. Sardinha, 22 Santa Rosa Tel: 2611.7550 - espacolivre@terra.com.br
Site: www.fotolog.com/_espacolivre