O policial Gustavo servia no 7º BPM na época que o Cel
Marcus Jardim era o comandante da Unidade. Certo dia, o policial estava
de serviço na rádio-patrulha 54-1233 junto com um companheiro,
nas proximidades do Morro da Coruja, quando abordaram um caminhão
tipo baú, com três homens.
O motorista, relata o policial, saiu do veículo segurando uma
barra de ferro e dizia que eles não podiam ser abordados porque
tinham “as costas quentes”. Os policiais foram agredidos
pelo motorista e revidaram a agressão, conseguindo conter o
agressor.
Só que, quando estavam a caminho da 74ª DP para registrar
o ocorrido, receberam ordens superiores de um sargento pedindo que
os liberassem. Logo depois, souberam que o referido sargento é
dono de uma frota de caminhões, incluindo o veículo
abordado pela guarnição.
Mas acatando as ordens, os policiais soltaram os homens em frente
ao Fórum de São Gonçalo, onde havia uma supervisão
de oficiais. E esta mesma supervisão deu voz de prisão
aos policiais, que foram encaminhados à 74ª DP, acusados
de flagrante de tortura, concussão e disparos de arma de fogo.
Vale salientar que o fato aconteceu às vésperas da eleição,
quando só pode haver prisões em flagrante.
Ao chegar à DP, já estava toda imprensa, o comandante
do 7º BPM, Cel Marcus Jardim, e o tenente que é filho
do sargento dono do caminhão. O tenente foi visto pela mulher
do PM Gustavo, Amanda, dando depoimento ao inscrivão em lugar
dos homens que estavamo no caminhão.Posteriormente, ao analisar
o processo, o depoimento dos integrantes do caminhão era idêntico,
coincidindo até mesmo a pontuação, fato que também
consta no relatório do CRD.
Jardim, que estava apoiando uma candidata à prefeitura de São
Gonçalo, deu entrevista dizendo que os policiais “haviam
cometido crimes hediondos”.
Os policiais ficaram presos por 46 dias no Batalhão. Foram
submetidos à Conselho de Disciplina (CD), sendo inocentados
por unanimidade, mas excluídos pelo Comando Geral.
Mas de acordo com o laudo do Hospital Municipal de São Gonçalo,
onde foi feito o atendimento a um dos supostos torturados, - já
que os outros dois não aparentavam nenhum sinal de agressão
e não quiseram ser socorridos - o médico Luiz Henrique
Costa relata que o mesmo “não se deixou examinar, não
estendeu o braço”.
“Como pode alguém que foi torturado não aceitar
ajuda?”, pergunta Amanda, esposa do policial Gustavo.
Veja laudo completo e outros documentos no site: www.assinap.com.br.
Decisão da AJMERJ
Os policiais só foram soltos por ordem do Juiz da AJMERJ (Auditoria
de Justiça Militar do Estado), afirmando que jamais os referidos
policiais poderiam ter cometido tortura naquela situação,
nem havia prova de disparo de arma de fogo, só respondendo
pelo suposto crime de concussão por restar o dito pelo não
dito, ao qual não foram apontadas provas.
Paúl: “Mais um limão para a limonada”
O policial Gustavo e sua esposa Amanda procuraram o então
corregedor da PM, Coronel Paúl, para mostrar toda documentação
a fim de evitar uma possível exclusão da Corporação.
O casal não saiu esperançoso da conversa.
“O corregedor, primeiro, pediu para que parassem de chegar
pedidos por minha permanência. Depois ele disse que não
poderia fazer muita coisa, que eu seria mais um limão para
a limonada, mais um caso para a estatística da PM. Ele ainda
disse para eu correr atrás dos meus direitos que acabaria voltando
para a Polícia”, relembra Gustavo, que tinha conceito
“ótimo” em comportamento.
O policial agora vai entrar com o processo para reintegração
por intermédio da ASSINAP.
“Resolvi falar sobre meu caso para dar exemplo a outros
colegas. Não podemos deixar que nos tratem dessa maneira. Muita
coisa precisa mudar na PM. Somos tratados como escravos, só
falta nos colocar no tronco e chicotear. Não temos direitos”,
desabafa.
O presidente da ASSINAP, Miguel Cordeiro, também critica posição
da PM. “Esse não é único caso de arbitrariedade
que a Polícia do Rio de janeiro comete. Não sei onde
vamos parar com tanta incompetência e abuso”.