:: JORNAL ASSINAP - NOVEMBRO 2009 - pág. 05
 
EXCLUSÃO

PM quer expulsar soldado seriamente enfermo

Policial adquiriu problema de coluna em treinamento na Corporação
Alan Gomes Henriques era recém-graduado em Relações Internacionais quando se inscreveu para o concurso da PMERJ. Mesmo com sua formação, ser policial era um sonho que ele acalentava desde pequeno. Alan foi aprovado com tranqüilidade e, em 2001, estava no CFAP para o curso de formação de soldados.

Mas foi justamente lá que aconteceu um incidente que iria mudar o rumo de sua vida. Durante um dos treinamentos, ele caiu e foi pisoteado na coluna. Desde então, passou a reclamar de dores na região lombar. Chegou a ir ao Hospital Central da PM (HCPM) várias vezes, mas sem conseguir diagnosticar o problema.

Do CFAP, ele foi trabalhar no 9º BPM, depois no QG, seguido do 14º BPM e, por fim, no 11º BPM, em Friburgo. Foram cerca de três e meio sentido dores na coluna.

- Só que os médicos diziam que ele estava de moleza e o mandavam de novo ao trabalho normal, diz a senhora Jane Gomes Henriques, mãe de Alan.

Finalmente, quando ele estava no 11º BPM, o comandante, mesmo sem acreditar na veracidade do problema, encaminhou o jovem soldado ao Hospital da PM em Niterói, onde foi feita uma ressonância magnética, em 2005. O exame acusou uma hérnia discal lombar entre as vértebras L5/S1.

Negligência

Depois de tanto tempo sem receber o tratamento adequado pelo departamento médico da PM, só restava como solução para o caso a intervenção cirúrgica.

Alan preferiu seguir com o tratamento de sua coluna fora da PM e ganhou uma liminar na Justiça o autorizando. Ele recorreu ao Hospital Estadual dos Servidores para realizar a cirurgia.

A cirurgia foi realizada com êxito. Mas o soldado, por uma reação do seu organismo, desenvolveu uma fibrose, que lhe causa dores inimagináveis, vivendo desde então à base de fortes analgésicos.

- Tudo isso aconteceu com meu filho porque o tratamento correto foi negligenciado por anos e anos dentro da PM, até ser necessária uma cirurgia, - lamenta o pai, senhor José Gomes Henriques Filho.

Desde 2005, Alan, hoje aos 33 anos, vive à base de doses de morfina, anda de muletas e mal consegue se locomover sozinho. Seu acompanhamento médico é feito no Hospital Universitário Gafree Guinle, pois a família não tem condições financeiras de arcar com tratamento de saúde privado.

De acordo com pais Jane e José Gomes, todo o fato foi comunicado à PM , junto com o pedido de reforma do soldado, mas a Corporação força a sua exclusão sem direito algum, acusando-o de deserção, tendo inclusive aberto um CRD, já que o policial tem menos de 10 anos na Instituição.

A família recorreu à ASSINAP no mês de setembro deste ano para conseguir a reforma do filho. Alan toma 10 medicamentos por dia e está em depressão profunda desde que sua carteira de policial foi retirada em agosto de 2009.

- Era um sonho do meu filho ser policial. Ele amava servir à PM. Na sua ficha consta comportamento ótimo, com elogios inclusive da Arquidiocese do Rio de Janeiro, quando trabalhou no Parque do Mendanha, no 14º BPM. Mas a PM está transformando nossas vidas num inferno, agindo de forma maldosa. Basta nos visitar e ver as condições do nosso filho - desabafa o pai José Gomes.

Trecho do laudo médico

Para se ter uma idéia do sofrimento pelo qual passa o jovem Alan, o laudo do médico Vanderson Carvalho Néri, do Hospital Gafree Guinle, em 18 de agosto de 2009, relata que o paciente demonstra “dor insuportável, refratariedade à medicação, incapacidade pela elevada intensidade da dor correspondente a EVA = 10 numa escala de 0 a 10. (...) Apresenta quadro compatível com radiculopatia, demonstrando dor à mobilização dos membros inferiores, reflexos profundos exaltados, tônus e força muscular diminuídos, além do comprometimento da sensibilidade superficial e profunda. Devido ao quadro, o paciente encontra-se impossibilitado de suas atividades laborativas”.

ASSINAP quer extinção da Junta Médica

- Lamentavelmente, fatos como esse não são raros. São várias as denúncias que nos chegam com referência à Junta de Saúde - diz Miguel Cordeiro, presidente da ASSINAP.

Um estudo do Departamento Jurídico da Associação chegou a conclusão baseado em normas do Conselho Federal de Medicina (CFM), que a Junta Médica da PM é irregular. De acordo com o CFM, o médico do trabalho não pode fazer perícia de funcionário para a empresa na qual atua.

Desta forma, a Junta de Saúde funciona irregularmente. Por conta desse entendimento, a ASSINAP já está com uma ação na Justiça pedindo a extinção da perícia médica, e, ao fim, irá proceder criminalmente.

A ASSINAP ainda vai encaminhar à Alerj um pedido para realização de audiência pública para debater as perícias médicas nas corporações militares.

A associação, na pessoa do Presidente Miguel Cordeiro, durante audiência pública presidida pelo deputado Wagner Montes em 19 de outubro, fez publicamente um pedido de CPI na PM e no BM, para analisar também questões financeiras e disciplinares.

 
ASSINAP consegue reforma de tenente-coronel da PM
O Tenente-coronel Guaraci Rodrigues Pontes impetrou, através da ASSINAP, mandado de segurança visando obter a formalização de sua reforma. Ele apresentava problema de saúde adquirido em ato de serviço, mas se encontrava agregado na DGP, impedido de ser promovido a Coronel/PM, o que lhe impunha uma perda mensal de 44%.

Só que à época, a secretaria de estado Chefe do Gabinete Civil do Governo Rosinha Mateus indeferiu o pedido, porque distinguia invalidez de incapacidade, exceção que a Lei militar não faz.

A PM reconhece o ato de invalidez em serviço, pouco importando se pode prover ou não, como fato que justifique a reforma. Apenas o auxílio-invalidez é que só será concedido em caso de incapacidade total e permanente sem poder prover.

O tenente-coronel foi considerado “incapaz definitivamente para o serviço policial militar, com moléstia incurável, adquirida em consequência de ato de serviço”.

Ele ficou com sérios problemas auditivos por ter sido instrutor de tiro durante anos na PM, numa época em que o protetor auricular não era obrigatório, o que só passou a acontecer a partir de 1999.

Por fim, o Desembargador-Relator, Ronaldo Rocha Passos, entendeu ser procedente o pedido, determinando a reforma do militar. Sua passagem para a inatividade foi publicada no Diário Oficial do dia 21 de setembro, em ato do secretário de estado Chefe da Casa Civil.