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Afastado há dois
anos do quadro de ativos do Corpo de Bombeiros, o coronel Marcos Silva,
de 57 anos, ficou conhecido, pelos colegas e população,
por ser um servidor que saía do gabinete para se envolver pessoalmente
em resgates. Por esse e outros motivos, o último cargo que exerceu
foi o de chefe do Estado Maior da corporação, nos anos
de 2005 e 2006. Antes, ocupou a cadeira de comandante das Unidades Operacionais.
Apesar da garra e bons serviços prestados, assim que o governador
Sérgio Cabral Filho assumiu, em 2007, o oficial perdeu espaço
e foi “convidado” a se reformar.
Preferia ganhar menos
Segundo ele, ser um bombeiro reformado, após
estar à frente do Estado Maior, significa ter rendimento maior.
Porém, Marcos Silva explica que preferia continuar com o rendimento
mensal a ter que se afastar de suas atividades diárias. Mas o
que ele queria não aconteceu. O motivo?
Ninguém sabe exatamente, revela Silva. O que se sabe é
que, sem desmerecer seus sucessores, o coronel ainda tinha muito mais
sangue a doar para seu amado Corpo de Bombeiros.
Tragédia anunciada
Entre os inúmeros casos de resgate que participou,
o salvamento de moradores do edifício Palace II, que desabou
na Barra da Tijuca em 1998, foi o mais marcante na vida profissional.
Como também era morador no prédio que foi abaixo, Marcos
Silva, assim que percebeu as primeiras rachaduras, foi em cada andar
avisar às pessoas para que saíssem o mais rápido
possível dos imóveis.
A família do coronel tomou ciência do perigo de desabamento
por ele mesmo, mas saiu do prédio por conta própria. Para
salvar as inúmeras vidas, o coronel não se preocupou somente
com sua família e deu uma lição de solidariedade.
“O Corpo de Bombeiros para mim é uma imagem sagrada, a
qual sou devoto. Levei 20 anos sem tirar férias e sempre trabalhei
de segunda à sexta-feira, incluindo muitos sábados e domingos.
Tenho muito orgulho de dizer que em, toda minha carreira, eu e minha
tropa participamos do salvamento de 9.200 pessoas no mar”, disse
Marcos Silva. De acordo com o coronel, sua última passagem na
ativa pela corporação foi uma realização
profissional. Atuou nas florestas, mar, terra, ar e incêndios.
“Esse período foi a época dos anos durados de minha
vida”, acrescentou Marcos Silva. Apesar de deixar claro que não
guarda mágoa de ninguém, o coronel disse que ficou muito
chateado quando soube, através de um boletim interno em janeiro
de 2007, que havia perdido seu cargo na corporação.
Pesadelo sem fim
“Até hoje acordo de madrugada pensando
no Corpo de Bombeiros. Tento me fazer de forte, mas perdi minha alegria
de viver quando deixei de trabalhar”, contou Marcos Silva. Em
um quarto na casa do coronel, ele guarda suas fardas e fotografias que
registram inúmeros momentos vividos a serviço da população.
Durante a entrevista, Marcos Silva disse não aceitar ver o nome
de bombeiros envolvido em coisas erradas.
“Comia o fígado”
“Na minha tropa, quem manchasse o nome dos bombeiros
eu comia o fígado. Não é possível amar tanto
uma corporação e não poder cuidar da minha tropa.
Sinto que o Corpo de Bombeiros precisa do meu amor”, confessou.
Quando o assunto é sua família, o coronel afirma que,
por sua dedicação ao trabalho, nunca pôde dar muita
atenção à mulher, Alice, e aos filhos Marcos e
Monique.
“Tento recompensar todos os dias. A coisa que mais amo nesse momento
é o meu neto. Quando ele está por perto, não perco
a oportunidade de jogar bola com ele”, contou.
Antes de terminar o bate-papo, o coronel completou que sente falta de
cuidar da população. Segundo ele, a idéia de não
poder mais servir ao Corpo de Bombeiros é sufocante. Por outro
lado, sua mulher também deseja que Marcos volte a trabalhar.
Apesar de passar grande parte do dia em casa, ela acredita que “pelo
amor sublime que o marido tem pela corporação, ele deveria
voltar a trabalhar”. |