:: JORNAL ASSINAP - MARÇO / 09 - pág. 04
 
Coronel Marcos Silva e o sonho de voltar para ativa
Afastado há dois anos do quadro de ativos do Corpo de Bombeiros, o coronel Marcos Silva, de 57 anos, ficou conhecido, pelos colegas e população, por ser um servidor que saía do gabinete para se envolver pessoalmente em resgates. Por esse e outros motivos, o último cargo que exerceu foi o de chefe do Estado Maior da corporação, nos anos de 2005 e 2006. Antes, ocupou a cadeira de comandante das Unidades Operacionais. Apesar da garra e bons serviços prestados, assim que o governador Sérgio Cabral Filho assumiu, em 2007, o oficial perdeu espaço e foi “convidado” a se reformar.

Preferia ganhar menos

Segundo ele, ser um bombeiro reformado, após estar à frente do Estado Maior, significa ter rendimento maior. Porém, Marcos Silva explica que preferia continuar com o rendimento mensal a ter que se afastar de suas atividades diárias. Mas o que ele queria não aconteceu. O motivo?

Ninguém sabe exatamente, revela Silva. O que se sabe é que, sem desmerecer seus sucessores, o coronel ainda tinha muito mais sangue a doar para seu amado Corpo de Bombeiros.

Tragédia anunciada

Entre os inúmeros casos de resgate que participou, o salvamento de moradores do edifício Palace II, que desabou na Barra da Tijuca em 1998, foi o mais marcante na vida profissional. Como também era morador no prédio que foi abaixo, Marcos Silva, assim que percebeu as primeiras rachaduras, foi em cada andar avisar às pessoas para que saíssem o mais rápido possível dos imóveis.

A família do coronel tomou ciência do perigo de desabamento por ele mesmo, mas saiu do prédio por conta própria. Para salvar as inúmeras vidas, o coronel não se preocupou somente com sua família e deu uma lição de solidariedade.

“O Corpo de Bombeiros para mim é uma imagem sagrada, a qual sou devoto. Levei 20 anos sem tirar férias e sempre trabalhei de segunda à sexta-feira, incluindo muitos sábados e domingos. Tenho muito orgulho de dizer que em, toda minha carreira, eu e minha tropa participamos do salvamento de 9.200 pessoas no mar”, disse Marcos Silva. De acordo com o coronel, sua última passagem na ativa pela corporação foi uma realização profissional. Atuou nas florestas, mar, terra, ar e incêndios.

“Esse período foi a época dos anos durados de minha vida”, acrescentou Marcos Silva. Apesar de deixar claro que não guarda mágoa de ninguém, o coronel disse que ficou muito chateado quando soube, através de um boletim interno em janeiro de 2007, que havia perdido seu cargo na corporação.

Pesadelo sem fim

“Até hoje acordo de madrugada pensando no Corpo de Bombeiros. Tento me fazer de forte, mas perdi minha alegria de viver quando deixei de trabalhar”, contou Marcos Silva. Em um quarto na casa do coronel, ele guarda suas fardas e fotografias que registram inúmeros momentos vividos a serviço da população.

Durante a entrevista, Marcos Silva disse não aceitar ver o nome de bombeiros envolvido em coisas erradas.

“Comia o fígado”

“Na minha tropa, quem manchasse o nome dos bombeiros eu comia o fígado. Não é possível amar tanto uma corporação e não poder cuidar da minha tropa. Sinto que o Corpo de Bombeiros precisa do meu amor”, confessou. Quando o assunto é sua família, o coronel afirma que, por sua dedicação ao trabalho, nunca pôde dar muita atenção à mulher, Alice, e aos filhos Marcos e Monique.

“Tento recompensar todos os dias. A coisa que mais amo nesse momento é o meu neto. Quando ele está por perto, não perco a oportunidade de jogar bola com ele”, contou.

Antes de terminar o bate-papo, o coronel completou que sente falta de cuidar da população. Segundo ele, a idéia de não poder mais servir ao Corpo de Bombeiros é sufocante. Por outro lado, sua mulher também deseja que Marcos volte a trabalhar. Apesar de passar grande parte do dia em casa, ela acredita que “pelo amor sublime que o marido tem pela corporação, ele deveria voltar a trabalhar”.