:: JORNAL ASSINAP - MARÇO / 08 - pág. 03
 
Torres da cidadania
Projeto idealizado pelo Coronel PM reformado Márcio Lobato visa conter violência e possibilitar entrada do Estado em comunidades carentes

Imagine, por exemplo, que dentro do Morro do Alemão, uma das comunidades mais violentas da cidade do Rio, exista uma torre com mais de 20 metros de altura, em concreto reforçado e vidros blindados. Em seu topo, equipes policiais vigiam a localidade 24 horas por dia, intimidando a ação de crimimosos. Em sua base, são oferecidos serviços públicos para aquela população, como escolas, correios, Detran, postos médicos, entre outros.

Em linhas gerais, este é objetivo básico do Projeto “Torres da Cidadania”, criado pelo Coronel PM Ref. Márcio Lobato, com a assessoria técnica de Paulo Kiffer e do engenheiro eletrônico Rubens Borborema.

“As torres irão permitir a entrada do estado em locais hoje chamados de risco, sob o amparo de uma vigilância ininterrupta, proporcionando respostas imediatas do Poder Público, tanto nas questões sociais como contra a insegurança e a criminalidade”, explica Lobato, que apresentou o projeto a políticos, líderes comunitários e ONG.

Moradores de comunidades carentes aplaudiram o projeto. Já representantes de algumas organizações criticaram a idéia argumentando que o cidadão que reside nas comunidades se sentiria vigiado. Coronel Lobato tem a resposta na ponta da língua.

“Na realidade, esses cidadãos se sentirão protegidos. Vigiados serão os bandidos, os milicianos e outros mais que tenham interesses escusos naquelas áreas. O cidadão de bem não vai se incomodar em ser monitorado. Alguém reclama ao ser filmado em shoppings, supermercados ou qualquer outro estabelecimento comercial? Claro que não. Incomodada é a pessoa que pretende cometer algum delito”, argumenta.

“Criminosos se apoderaram da idéia”

Fatos amplamente divulgados pela imprensa, no final de 2007, a polícia encontrou uma casa de quatro andares no alto do Morro da Penha (Complexo do Alemão), e mais recentemente, em janeiro deste ano, uma fortaleza foi descoberta no Morro da Mangueira.

As construções inegavelmente davam uma visão privilegiada de toda movimentação dentro da comunidade, só que, quem monitorava toda a informação eram os bandidos.

“Estamos assistindo as comunidades sendo vigiadas pelos bandidos, uma polícia controlada e um governo submetido às suas regras e vontades. Vemos uma política de resultados e sem solução. Estamos deixando de assumir permanentemente os pontos altos de comandamento. Só que os bandidos assumiram essa estratégia, assumindo o controle de várias áreas. Sem burocracia, antes do estado, os criminosos se apoderaram da idéia da torre”, critica.

Para coronel, PAC trará apenas soluções provisórias

Por ocasião das obras do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento), o coronel apresentou o projeto ao Secretário Nacional de Segurança Pública, Antônio Carlos Biscaia, que foi simpático à idéia.

“No entanto, o secretário ressalvou que não dependia apenas dele a aprovação final, o Estado do Rio de Janeiro é quem deveria aprovar a obra de construção das torres. Segundo Biscaia, dinheiro há. É lamentável, que mesmo bem intencionado, o Estado certamente não alcançará os propósitos do Programa, sem o auxílio das torres”, avalia.

Para Lobato, as obras que serão ali realizadas irão parar nas mãos dos traficantes e dos milicianos, que passarão a administrar, controlar e dominar os empreendimentos, simplesmente por que depois não haverá pontos para fiscalização.

Projeto ameaça milícias e interesses de alguns políticos

As torres terão vidros espelhados à prova de balas e visão de dentro para fora. Serão equipadas com equipamentos de visão noturna, além de gerador de emergência.

“O vidro espelhado deixa os bandidos atordoados e apreensivos, pois não conseguem ver o seu observador”, explica.

Os policiais que atuarão nas torres não terão contato direto com a comunidade. As construções também evitarão o desgaste e o emprego diuturno de número excessivo de policiais para prevenir, controlar, vigiar uma área com a intenção de inibir a ação de bandidos.

“De nada adiantará criar projetos sociais (privados ou governamentais) se não houver segurança para tais empreendimentos de cidadania e para os moradores locais. As torres permitem observar tudo o que acontece nas áreas de risco. Quem tem mais informações da área, tem o domínio da situação”.

“As torres oferecem estrutura para proteger o cidadão, controlar as ações policiais e vigiar bandidos. Elas serão fundamentais para acabar com milícias e com o controle de certos políticos nessas áreas. O projeto atrapalha interesses de muitos poderosos, por isso que possui detratores, mas não podemos desistir”.