Imagine, por exemplo, que dentro do Morro do Alemão, uma das
comunidades mais violentas da cidade do Rio, exista uma torre com
mais de 20 metros de altura, em concreto reforçado e vidros
blindados. Em seu topo, equipes policiais vigiam a localidade 24 horas
por dia, intimidando a ação de crimimosos. Em sua base,
são oferecidos serviços públicos para aquela
população, como escolas, correios, Detran, postos médicos,
entre outros.
Em linhas gerais, este é objetivo básico do Projeto
“Torres da Cidadania”, criado pelo Coronel PM Ref. Márcio
Lobato, com a assessoria técnica de Paulo Kiffer e do engenheiro
eletrônico Rubens Borborema.
“As torres irão permitir a entrada do estado em locais
hoje chamados de risco, sob o amparo de uma vigilância ininterrupta,
proporcionando respostas imediatas do Poder Público, tanto
nas questões sociais como contra a insegurança e a criminalidade”,
explica Lobato, que apresentou o projeto a políticos, líderes
comunitários e ONG.
Moradores de comunidades carentes aplaudiram o projeto. Já
representantes de algumas organizações criticaram a
idéia argumentando que o cidadão que reside nas comunidades
se sentiria vigiado. Coronel Lobato tem a resposta na ponta da língua.
“Na realidade, esses cidadãos se sentirão protegidos.
Vigiados serão os bandidos, os milicianos e outros mais que
tenham interesses escusos naquelas áreas. O cidadão
de bem não vai se incomodar em ser monitorado. Alguém
reclama ao ser filmado em shoppings, supermercados ou qualquer outro
estabelecimento comercial? Claro que não. Incomodada é
a pessoa que pretende cometer algum delito”, argumenta.
“Criminosos se apoderaram da idéia”
Fatos amplamente divulgados pela imprensa, no final de 2007, a polícia
encontrou uma casa de quatro andares no alto do Morro da Penha (Complexo
do Alemão), e mais recentemente, em janeiro deste ano, uma
fortaleza foi descoberta no Morro da Mangueira.
As construções inegavelmente davam uma visão
privilegiada de toda movimentação dentro da comunidade,
só que, quem monitorava toda a informação eram
os bandidos.
“Estamos assistindo as comunidades sendo vigiadas pelos bandidos,
uma polícia controlada e um governo submetido às suas
regras e vontades. Vemos uma política de resultados e sem solução.
Estamos deixando de assumir permanentemente os pontos altos de comandamento.
Só que os bandidos assumiram essa estratégia, assumindo
o controle de várias áreas. Sem burocracia, antes do
estado, os criminosos se apoderaram da idéia da torre”,
critica.
Para coronel, PAC trará apenas soluções
provisórias
Por ocasião das obras do PAC (Plano de Aceleração
do Crescimento), o coronel apresentou o projeto ao Secretário
Nacional de Segurança Pública, Antônio Carlos
Biscaia, que foi simpático à idéia.
“No entanto, o secretário ressalvou que não dependia
apenas dele a aprovação final, o Estado do Rio de Janeiro
é quem deveria aprovar a obra de construção das
torres. Segundo Biscaia, dinheiro há. É lamentável,
que mesmo bem intencionado, o Estado certamente não alcançará
os propósitos do Programa, sem o auxílio das torres”,
avalia.
Para Lobato, as obras que serão ali realizadas irão
parar nas mãos dos traficantes e dos milicianos, que passarão
a administrar, controlar e dominar os empreendimentos, simplesmente
por que depois não haverá pontos para fiscalização.
Projeto ameaça milícias e interesses de alguns
políticos
As torres terão vidros espelhados à prova de balas
e visão de dentro para fora. Serão equipadas com equipamentos
de visão noturna, além de gerador de emergência.
“O vidro espelhado deixa os bandidos atordoados e apreensivos,
pois não conseguem ver o seu observador”, explica.
Os policiais que atuarão nas torres não terão
contato direto com a comunidade. As construções também
evitarão o desgaste e o emprego diuturno de número excessivo
de policiais para prevenir, controlar, vigiar uma área com
a intenção de inibir a ação de bandidos.
“De nada adiantará criar projetos sociais (privados ou
governamentais) se não houver segurança para tais empreendimentos
de cidadania e para os moradores locais. As torres permitem observar
tudo o que acontece nas áreas de risco. Quem tem mais informações
da área, tem o domínio da situação”.
“As torres oferecem estrutura para proteger o cidadão,
controlar as ações policiais e vigiar bandidos. Elas
serão fundamentais para acabar com milícias e com o
controle de certos políticos nessas áreas. O projeto
atrapalha interesses de muitos poderosos, por isso que possui detratores,
mas não podemos desistir”.