“Há duas
coisas a que temos de nos habituar, sob pena de acharmos a vida insuportável:
são as injúrias do tempo e as injustiças dos homens.”
Sébastian-Roch Chamfort (Autor francês)
Os últimos meses foram férteis em manifestações
por parte das corporações militares estaduais, já
desesperadas com a perda do poder aquisitivo de seus integrantes.
Muitos saíram às ruas com propostas diferentes, mas
com o mesmo objetivo, afinal todos querem receber vencimentos justos.
Mas não sabemos se a Justiça salarial chegará
na medida de nossas necessidades. Não é de hoje que
policiais e bombeiros são mal remunerados no estado do Rio
de janeiro. A categoria é massacrada há décadas
pelo descaso das autoridades que se aproveitam da proibição
de greve para militares, e assim vão levando seus agentes da
segurança como quem toca uma boiada.
Os militares estaduais são tão oprimidos, que mesmo
sem dinheiro para transporte ou alimentação, são
obrigados a comparecer à sua unidade, sob pena de detenção
ou algo que o valha. No início do ano, o Governador determinou
o piso mínimo regional para várias categorias de trabalhadores
no estado. Para empregadas domésticas, zeladores e porteiros,
o piso estipulado foi de R$ 470,34. Quer dizer, a iniciativa privada
terá que pagar no mínimo esse valor para contratar esses
profissionais.
Pois bem, mas sabe quanto é o soldo de um soldado? A assustadora
quantia de R$ 255,32!
É com essa lástima mensal que o soldado arrisca sua
vida para defender a sociedade. A mesma sociedade que o estigmatizou
e desdenhou, mas que agora está se dando conta da situação
de miserabilidade que o policial se encontra.
A situação é tão calamitosa que nossa
bandeira é que o soldo do soldado seja igual ao piso mínimo
regional da empregada doméstica, tal qual o governador Sérgio
Cabral mandou a iniciativa privada pagar.
O soldado sairá de R$ 255,32 para R$ 470,34. Será que
o governador acha muito para um servidor desta natureza? Não
temos dúvidas que a sociedade apoiaria, pois todos queremos
e precisamos de uma polícia motivada.
A Policia Militar é hoje um gigante de baixa produtividade,
e ainda é usada como moeda de troca para favores entre os poderes.
O executivo cede milhares de policiais para fazer a segurança
pessoal de figurões e figurinhas dos poderes Legislativo e
Judiciário.
Até a última conta, eram mais de cinco mil militares
entre oficiais e praças em desvio de função.
Homens que deveriam estar fazendo atividade-fim, já que a população
paga altos impostos para ter segurança também. Mas esses
militares estão andando por aí de terno e gravata no
fresquinho dos gabinetes, carregando pastas ou sendo motoristas de
nossas digníssimas autoridades, com a conivência e permissão
do chefe do executivo.
Trocando em miúdos, o estado proporciona segurança gratuita
para aqueles que deveriam pagar por ela. O policial remunerado pelo
governo atua como segurança particular, e somos nós
que pagamos a conta pela falta de policiamento ostensivo. Francamente!
Aí, o cidadão olha pros lados e não vê
nenhum policial, mas não é por falta, é que simplesmente
estão nos lugares errados.
E não se enganem, o homem que atua nas ruas é o mais
cabisbaixo e desamparado da corporação, tanto pelo salário
de fome como pelas péssimas condições de trabalho
e rigorismo de normas disciplinares quase medievais.
Dar aumento salarial para o PM e BM não é favor, mas
uma atitude de quem quer se fazer justo para si mesmo e para com a
população que o elegeu.
Miguel Cordeiro
Presidente da ASSINAP