:: JORNAL ASSINAP - JULHO E AGOSTO / 08 - pág. 02
 
EDITORIAL
Ofender é fácil, Governador
Depois de tantos equívocos cometidos pela Polícia Militar, o que também merece toda atenção é a postura que o Governador Sérgio Cabral resolveu adotar: a de mero crítico, como se não tivesse nada a ver com os fatos.

É muito fácil e cômodo tentar manter esse distanciamento chamando policiais de despreparados, de débeis mentais, de irracionais e afins. Assim, o Governador tenta se eximir da culpa que também lhe cabe. Afinal, é o Estado que deixa à míngua os homens que tem a função de proteger a sociedade. É a Polícia Militar, de propriedade do Estado, que forma policiais incompletos.

Governador, ofender seus policiais é fácil. Mas não é isso o que a população quer ouvir, não é isso o que os servidores da segurança querem ouvir. Como uma Instituição capenga e sucateada como é a Polícia Militar do estado pode criar bons quadros?

Governador, admita a situação de miserabilidade em que vivem os policiais que operam na ponta - os praças - justamente os homens que estão nas ruas. Os oficiais são treinados para comandar. Mas comandar o que, quem? Uma tropa esfacelada e desmotivada?

Não queremos nos ater apenas ao vergonhoso salário, pois nessa tecla se bate há tanto tempo e o senhor, como governador, deve estar informado quanto ganha seus policiais. Deve saber que com cerca de R$ 900 mensais é bem difícil se alimentar, se locomover, se vestir, morar, investir na educação dos filhos e na própria, e dar conta de ser um policial sem problemas financeiros e psicológicos. Saiba que a maioria da tropa é dependente de empréstimos consignados.

Mas isto o senhor deve saber. Tanto que afirmou que está estudando um reajuste para a Polícia. Boas falas, pena que só depois de tragédias.

Talvez o senhor não tenha conhecimento de como é o Curso de Formação Soldado (CFS) da sua polícia. Aconselhamos que vá ao CFAP. Mas sem avisar. Não se assuste se encontrar homens pintando muros, capinando ou fazendo faxina na Unidade. Estes são seus futuros policiais. Pode ser também que não encontre nenhum aluno, pois o senhor mesmo autoriza que façam segurança em festinhas ou “policiamento” em jogos no Maracanã.

Seus policiais nunca passaram por nenhuma simulação de crise ou de perseguição nem tiveram orientação de técnicas de abordagem ou aulas de tiro.

Mas não é só isso.

Por falta de espaço, já que o CFAP só tem capacidade para cerca de 200 homens, a maioria é deslocada para batalhões operacionais, onde supostamente receberiam a formação. Mas aí, a coisa piora. Não existe instrutor, nem curso, nem nada. O homem vai para as ruas e seja o que Deus quiser.

Existem ainda os maus tratos dentro das casernas, a humilhação impingida por alguns superiores hierárquicos, a falta de armamento e munição, falta de uma carga horária definida e total desdém com as condições físicas e emocionais deste profissional.

Esta é sua polícia, Governador. Os seus policiais também são vítimas.

Pare de criticar e faça investimentos no lugar certo, fiscalize.

Só assim, o senhor poderá um dia se orgulhar desta Corporação e deixar de ir à imprensa para pedir desculpas à população.

Miguel Cordeiro
Presidente da ASSINAP

 
Leia a dissertação de mestrado "Preparados Para o Fracasso: Polícia e Política - 1999/2002" clique aqui
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O trabalho foi elaborado pelo Major Wilson de Araújo Filho, associado da ASSINAP, e foi aprovado com nota máxima pela banca examinadora do Mestrado em Ciência Política na UFF (Universidade Federal Fluminense). A dissertação aborda criticamente o treinamento da Polícia Militar do Estado do Rio e aponta subsídios técnico-científicos para a análise da questão policial e política de nossa sociedade.
Um trabalho que merece ser conhecido e comentado.
 
TEXTO LIVRE
A responsabilidade pela polícia incompetente
Devemos solidariedade à família do menor morto pela PM na Tijuca. O desabafo do pai emocionou a todos, até aqueles que vivem a violência no seu dia a dia. É certa a responsabilidade dos policiais, mas também é certa a responsabilidade dos governantes e dos legisladores, que fingem não ver a degradação da instituição Polícia Militar, e só se voltam para ela quando destes acontecimentos.

Após o fato esquecido, tudo fica como antes. A sociedade se esquece e os “políticos” se acomodam. Os policiais são responsáveis pela morte do menor, mas o Estado é responsável pela possível condenação destes policiais. Ainda há na polícia a política de morte, onde os matadores são admirados, cultuados, ficam como objetos de referência.

A sociedade reclama por uma polícia mais preparada, mas não há um órgão para fiscalizar a formação destes policiais, especialmente na Polícia Militar.

A PMERJ tem um Centro de Formação, o CFAP, mas, o que vemos são policiais sendo formados em Unidades Operacionais, onde é impossível - devido às diversas atribuições do efetivo - , dar especial atenção a formação dos alunos. O que há é o interesse dos Comandantes destas Unidades Operacionais em manter os cursos em suas Unidades, devido ao repasse de verbas, as etapas de rancho, que seguem integrais para estas unidades, como também ter um efetivo disponível para “encher” as ruas de policiais em ocasiões especiais.

Os Oficiais da PMERJ teoricamente são polivalentes, pois geralmente são instrutores em diversas disciplinas, muitas das quais não dominam, passando a responsabilidade a sargentos.

Nestas Unidades, vemos o princípio da eficiência ser violado quando se escala Subtenentes na função de Oficial de Dia, Capitão sem o Curso de aperfeiçoamento de oficiais assumindo funções de estado maior, 3º Sargentos promovidos por força de Decreto, assumindo funções de Sargenteante de Cia, Adjunto ao oficial de Dia, Comandante da Guarda do quartel, como também assumindo função de Averiguador, sem mesmo terem o devido Curso de Formação de Sargentos, ou seja, são Sargentos com conhecimento de Cabo.

A sociedade que admite esta desordem é no mínimo conivente. A sociedade que admite que um soldado da Polícia Militar, geralmente o homem que está a frente do policiamento ostensivo, ganhe cerca de R$ 900,00 para sustentar a si e família, é conivente com as convivências ilícitas a que este policial está sujeito.

Neste momento, os deputados estão com vistas somente às articulações políticas, se voltam para as mazelas da polícia somente para se promoverem, não atacando a origem do problema: a péssima remuneração dos policiais, a revoltante formação, a responsabilidade dos Comandantes e Governantes.

A matéria do repórter Rafhael Gomide, da Folha de São Paulo, matriculado em um Curso de Formação da PMERJ, retrata a realidade dos cursos, mas não obteve a devida atenção.

Atacar a origem do problema não está a altura do entendimento de nossa sociedade que só quer ver o ataque ao PM, seja na sua forma física ou moral, não se importando se é mal pago ou mal formado. Por fim, a sociedade tem a polícia que merece, pois não toma conhecimento de suas deficiências. É como o pai surpreendido com o filho flagrado como usuário de drogas. Apesar dos sinais indicativos, não dava a devida importância, e se pergunta depois “onde foi que eu errei?”.

Muito acertadas as declarações de Miguel Cordeiro sobre a formação na Polícia Militar. Tocou na ferida que não irá cicatrizar enquanto não houver a devida responsabilização das autoridades pela exposição tão negativa da polícia.

Hoje não consigo compreender os policiais que estão ávidos por irem para o combate, enfrentar o perigo, trocar tiros com marginais, trabalhar em uma RP, em um PATAMO, em troca de salário de R$ 900,00. Amor Corporativo? Cumprimento do Dever? É melhor repensar sobre os motivos, pois ninguém consegue amar os pais se eles maltratam seus filhos. Não se consegue respeitar seu empregador, se este não lhe dá condições de trabalho.

Ricardo Oscar Vilete Chudo
(Policial militar e associado da ASSINAP)