| Morador do Conjunto Habitacional
João XXIII, em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio, há 25 anos,
Wilson Ferreira da Silva, acompanhou várias fases da comunidade.
Algumas delas, ele preferia não ter vivido. O que antes já
foi um local tranquilo, segundo Ferreira, se transformou num reduto
de milicianos, que fazem dos moradores reféns de seus mandos.
Em 2005, Ferreira, então presidente da Associação
de Moradores do conjunto, percebeu que a comunidade de 20 mil habitantes
estava, aos poucos, sendo invadida por um grupo de marginais vindos
do bairro de Senador Camará, sob a liderança de um bandido
conhecido como ‘Paulinho Marimbondo’, todos eles vinculados
à facção criminosa “Terceiro Comando”.
O objetivo era implantar o tráfico de drogas no local e adjacências,
além da expulsão de policiais militares e civis que residiam
na região.
No entanto, policiais da comunidade resolveram desenvolver um trabalho
de conscientização com os moradores e a fazer rondas na
localidade, inibindo a ação dos criminosos, que terminaram
sendo retirados da localidade. Mas a iniciativa bem sucedida estimilou
a ganância de alguns policiais e de um membro da Marinha do Brasil.
Segundo Ferreira, “motivados pelo sucesso alcançado, eles
continuaram a fazer rondas, só que utilizando métodos
inadmíssiveis”.
Os militares envolvidos eram os soldados PM da ativa Alessandro Fiel,
do 22 BPM, e Antonio Fraga Júnior, do 14 BPM, além do
marinheiro Leandro Sales, lotado na Organizaçao Militar da Ilha
das Cobras, centro da cidade. Todos eram membros da associação
de moradores.
Eles proibiram os moradores de ouvir determinados tipos de música
-, especialmente funk -, e de andar nas ruas de madrugada, como também
definiam o horário de funcionamento do comércio local.
Auto-intitulados como ‘justiceiros’, faziam disparos de
arma de fogo a esmo e agrediam moradores desavisados e visitantes que
entravam no conjunto residencial.
“Começaram também a pedir R$ 15 de cada morador
a título de segurança. Queriam administrar a venda de
gás e o transporte alternativo do local, além de implantar
a TV a cabo ilegal, a gatonet”, relata Ferreira.
“Como presidente da Associação, fui contra tudo
isso. Não deixei dinheiro ilícito entrar. Falei que aquilo
era extorsão, e que eles estavam agindo como bandidos. Então,
eles montaram uma chapa e ganharam a eleição. O novo presidente
é manipulado por eles”, diz Ferreira.
Todo o ocorrido foi registrado e denunciado por Wilson Ferreira, em
2005 e 2006, na 36 DP (Santa Cruz), na Delegacia de Homicídios
(Campo Grande), na 1 Delegacia de Polícia Judiciária Militar
(DPJM), como também à Corregedoria Interna da PMERJ, à
Corregedoria Geral Unificada e ao Comando Geral do Quartel da Ilha das
Cobras.
No entanto para surpresa e indignação de Ferreira, a PM
convocou-o para ser julgado em Conselho Disciplinar (CD) junto com os
bandidos que ele próprio denunciou. A ASSINAP vai entrar com
mandado de segurança para retirá-lo do CD, até
porque o mesmo é reformado, como também entrar com ação
de dano moral contra a corporação.
“Estou revoltado, não estou entendendo porque a PM está
fazendo isso comigo. Sou um homem honrado. Como pode eu denunciar um
crime, daí vem a PM e me coloca em julgamento junto com os bandidos?”.
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