:: JORNAL ASSINAP - DEZEMBRO / 07 - pág. 08
 
Papéis trocados
Policial reformado que denunciou milícia é posto no banco dos réus pela PM
Morador do Conjunto Habitacional João XXIII, em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio, há 25 anos, Wilson Ferreira da Silva, acompanhou várias fases da comunidade. Algumas delas, ele preferia não ter vivido. O que antes já foi um local tranquilo, segundo Ferreira, se transformou num reduto de milicianos, que fazem dos moradores reféns de seus mandos.

Em 2005, Ferreira, então presidente da Associação de Moradores do conjunto, percebeu que a comunidade de 20 mil habitantes estava, aos poucos, sendo invadida por um grupo de marginais vindos do bairro de Senador Camará, sob a liderança de um bandido conhecido como ‘Paulinho Marimbondo’, todos eles vinculados à facção criminosa “Terceiro Comando”.

O objetivo era implantar o tráfico de drogas no local e adjacências, além da expulsão de policiais militares e civis que residiam na região.

No entanto, policiais da comunidade resolveram desenvolver um trabalho de conscientização com os moradores e a fazer rondas na localidade, inibindo a ação dos criminosos, que terminaram sendo retirados da localidade. Mas a iniciativa bem sucedida estimilou a ganância de alguns policiais e de um membro da Marinha do Brasil. Segundo Ferreira, “motivados pelo sucesso alcançado, eles continuaram a fazer rondas, só que utilizando métodos inadmíssiveis”.

Os militares envolvidos eram os soldados PM da ativa Alessandro Fiel, do 22 BPM, e Antonio Fraga Júnior, do 14 BPM, além do marinheiro Leandro Sales, lotado na Organizaçao Militar da Ilha das Cobras, centro da cidade. Todos eram membros da associação de moradores.

Eles proibiram os moradores de ouvir determinados tipos de música -, especialmente funk -, e de andar nas ruas de madrugada, como também definiam o horário de funcionamento do comércio local. Auto-intitulados como ‘justiceiros’, faziam disparos de arma de fogo a esmo e agrediam moradores desavisados e visitantes que entravam no conjunto residencial.

“Começaram também a pedir R$ 15 de cada morador a título de segurança. Queriam administrar a venda de gás e o transporte alternativo do local, além de implantar a TV a cabo ilegal, a gatonet”, relata Ferreira.
“Como presidente da Associação, fui contra tudo isso. Não deixei dinheiro ilícito entrar. Falei que aquilo era extorsão, e que eles estavam agindo como bandidos. Então, eles montaram uma chapa e ganharam a eleição. O novo presidente é manipulado por eles”, diz Ferreira.

Todo o ocorrido foi registrado e denunciado por Wilson Ferreira, em 2005 e 2006, na 36 DP (Santa Cruz), na Delegacia de Homicídios (Campo Grande), na 1 Delegacia de Polícia Judiciária Militar (DPJM), como também à Corregedoria Interna da PMERJ, à Corregedoria Geral Unificada e ao Comando Geral do Quartel da Ilha das Cobras.

No entanto para surpresa e indignação de Ferreira, a PM convocou-o para ser julgado em Conselho Disciplinar (CD) junto com os bandidos que ele próprio denunciou. A ASSINAP vai entrar com mandado de segurança para retirá-lo do CD, até porque o mesmo é reformado, como também entrar com ação de dano moral contra a corporação.

“Estou revoltado, não estou entendendo porque a PM está fazendo isso comigo. Sou um homem honrado. Como pode eu denunciar um crime, daí vem a PM e me coloca em julgamento junto com os bandidos?”.
 
 
Coluna Texto Livre
A semente

Vá para a luta, soldado.
Que voltes até vencido
Mas que tenhas o queixo erguido
Por não haver sucumbido
Ante o poder que corrompe
Do recruta ao general
Seja um herói nessa luta
O vencedor da disputa
Entre o bem e o mal
Não traga consigo a mácula
De ter sido subornado
Olhe pra todos de frente
Seja você a semente
Do exemplo a ser seguido
E quando no dia-a-dia
No espelho se mirar
Verás um homem decente

Wilson Ferreira é policial reformado