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Dizem que de futebol
todo brasileiro entende um pouco. Mas no Rio de janeiro, além
do futebol, podemos incluir a Segurança Pública. O Rio
deve ser o maior de reduto de especialistas e pitaqueiros em segurança
e, no entanto... Bem, nem precisamos relatar o que acontece por aqui
nesta área.
Todos concordam que aumento de salário, novos equipamentos e
viaturas além do reforço no efetivo, bem como o treinamento
adequado, são medidas para melhoria da segurança pública.
Mas nada disso vai funcionar se não houver uma mudança
na instituição “Polícia Militar” e
na mentalidade de seus integrantes. A revisão do Regulamento
Disciplinar da PM (RDPM) é uma das principais chaves para que
essas transformações aconteçam, e por determinação
do governador Sérgio Cabral, o tema será rediscutido e
uma nova proposta será apresentada à Alerj.
Elaborado sob a influência da ditadura militar, o RDPM é
reconhecidamente autoritário e ultrapassado, mas ainda serve
como suporte para erros e injustiças dentro da Corporação
para com os seus. O RDPM estabelece as punições que as
praças (soldados, cabos, sargentos e subtenentes) são
submetidas por ter cometido alguma transgressão disciplinar.
Já os oficiais têm foro privilegiado e quando são
punidos, a publicação é feita em boletins reservados,
enquanto que para as praças a divulgação é
pública, mesmo que ainda não tenham provas.
Pois bem, o maior problema é que as tais transgressões
disciplinares não estão especificadas de acordo com a
punição correspondente, ficando a cargo do comandante
ou superior hierárquico decidir se tal transgressão deve
ser considerada leve, média ou grave. Existe no RD um instrumento
chamado Poder Discricionário, usado e abusado pelos oficiais
quando pretendem punir. Existe apenas um julgador, que age de acordo
com seu grau de autoritarismo ou raro sendo de justiça.
Há casos inacreditáveis, como o de policiais que foram
punidos com detenção por que conversaram em determinada
solenidade oficial. Há casos piores, como o de policiais que
foram punidos com transferência de batalhão para lugares
muito distantes de sua moradia ou de sua família, simplesmente
por não contar com a simpatia de seu comandante. Houve até
a esdrúxula prisão de um sargento porque este contraiu
dívidas numa loja de eletrodomésticos.
Será que a Corporação tem o direito de invadir
a vida privada de seus quadros, mesmo quando este segue com boa conduta
dentro da instituição? Não somos contra a rigidez
do Regulamento. Acreditamos que o mau policial deve ser punido severamente
com prisão ou até mesmo com exclusão da corporação,
tal como um mau funcionário de um empresa privada é dispensado
de seu emprego.
Mas para o atual RDPM permite que bons homens sejam penalizados. Para
que? Apenas para satisfação e justificação
da existência de seus superiores?
Revisar o Regulamento Disciplinar da PM é urgente e provavelmente
uma das medidas mais aguardadas pela tropa e até mesmo por muitos
oficiais que não concordam com o despotismo de suas linhas. Não
há porque, em pleno século XXI, a PM continuar seguindo
um modelo de RD totalmente aberrante das normas constitucionais, e que
mais parece ter sido produzido por inquisidores da Idade Média,
pois nega ao policial direitos básicos do cidadão comum,
como a ampla defesa e contraditório.
A revisão do RDPM deve passar por uma ampla revisão da
mentalidade castrense. Não faz sentido um excessivo número
de oficiais dentro de batalhões, sem exercer atividade-fim. A
sociedade quer polícia atuando na rua. A realidade social diante
do quadro de violência não admite mais militarismo enclausurado
e enraigado só em serviços burocráticos.
Miguel Cordeiro
Presidente da ASSINAP |