EDITORIAL
Milícias: não há bonzinhos nessa história
Como se já não bastasse a violência gerada
por facções criminosas rivais na luta pelo domínio
de territórios, agora a população do Rio tem algo
mais para temer: o fortalecimento das milícias. Formada essencialmente
por agentes da segurança pública e ex-policiais, as milícias
já ocupam mais de 90 favelas do Estado, sob o discurso falso
de que fazem segurança privada do pobre. Mas a história
não é bem assim. De boazinha, a milícia não
tem nada.
Os integrantes de tais organizações clandestinas se igualam
a bandidos tão ou mais opressores do que os do crime organizado
que dizem exterminar. Pois, munidos apenas da força bruta e da
covardia, punem qualquer morador que não siga as regras predeterminadas
por eles.
Eles chegam às comunidades pobres, dominam as respectivas associações
de moradores e obrigam todos a pagarem uma taxa a título de contribuição
para segurança. Quando dominam a comunidade, passam a exigir
participação nos lucros de negócios ilegais, como
transmissão irregular de TV a cabo, a chamada “gato net”,
venda de gás e exploração de vans clandestinas,
a maioria de carros clonados, como também exigem percentuais
em alugueis e venda de imóveis. E aií de quem reclamar,
pois castigam todo e qualquer morador que vá contra.
Os milicianos se autodenominam defensores das comunidades ao expulsarem
ou mataram traficantes, criando uma falsa sensação de
segurança. Mas nada garante que esses mesmos milicianos não
estejam envolvidos no tráfico. Tudo é luta por poder.
Muitos oficiais de alta patente e delegados se calam e até protegem
tais facções por causa do jogo de troca de favores com
os milicianos, que os regalam com agrados em dinheiro, fruto de suas
atividades Ilícitas.
Os atos falam por si. Como defender a recente ação das
milícias do morro do Cordovil, onde cerca de 300 homens invadiram
a comunidade barbarizando moradores? Chegaram com granadas nas mãos
e fortemente armados, humilhando e espancando quem estivesse em seu
caminho. Sabemos que muitos inocentes, pais e mães de famílias,
foram vítimas desta ação que mais parecia um filme
de terror. Além de matar, os milicianos saquearam apartamentos
e roubaram documentos de trabalhadores.
Muitos, agindo de má fé ou por desinformação,
andam dizendo que as milícias são um mal necessário,
mas me digam, como o mal pode ser necessário? Muitos falam sobre
as milícias sem conhecimento de causa, e ainda ousam defende-las,
como se estas organizações ilegais fossem, de fato, varrer
o crime nas comunidades que ocupam. O que não acontece. As milícias
apenas substituem uma organização criminosa por outra.
Chegamos ao ponto que uma associação representativa de
militares tornou público seu apoio às milícias
se colocando como o quartel-general das mesmas. No caso em questão,
a ASSINAP já denunciou ao Ministério Público e
comunicou a todos os organismos da segurança pública.
Será que vão tomar alguma atitude?
O Governador demonstrou clareza ao se pronunciar sobre as milícias
ao compará-las com as organizações paramilitares
ilegais existentes em Bogotá, capital da Colômbia. Estas
organizações funcionam de maneira similar às milícias
e já tomaram parte da cidade formando um poder paralelo e trazendo
imensos problemas para o país. O Secretário de Segurança
e o Comandante da PMERJ também coadunam do mesmo pensamento do
governador, de acordo com suas declarações na imprensa.
Posso falar sobre a ação criminosa das milícias
por que presenciei o nascimento dela, quando morava em Jardim Maravilha,
sub-bairro de Campo Grande, no final dos anos 90. Á época,
os integrantes passaram a expulsar os traficantes para outras comunidades,
mas também obrigavam todos os parentes do bandido a abandonarem
suas moradias. Sob ameaças de morte, os familiares humilhados,
na maioria das vezes inocentes e sem ter para onde ir, deixavam suas
casas para trás, ou melhor, na mão dos milicianos, que
se apossavam e depois vendiam.
Ao me posicionar contra os procedimentos dos “mantenedores da
ordem”, passei a ser perseguido também. Através
da rádio comunitária de Jardim Maravilha, ouvi meu nome
ser repetido com juras de morte. “Aquele que cai na chapa quente
não passa de cinco dias, Miguel Cordeiro”. Esta era a senha
de que eu estava na mira. A ameaça vinha na voz do então
sargento PM Adilson Pereira dos Santos, lotado no Regimento de Polícia
Montada (RP-Mont).
Guaratiba era o nome da rádio que alcançava toda comunidade
e os cinco dias que se referiam era o tempo que o PM Adilson dava para
seus oponentes deixarem o local, por conta própria ou pela força
bruta. Quatro dias depois da ameaça, dei queixa na 35ª DP
(Campo Grande), como também com uma petição ao
delegado e uma representação no Ministério Público
estadual para que o caso fosse investigado.
Sabe o que aconteceu? NADA!!! Absolutamente nada foi investigado. Passaram-se
dez anos e não vi nenhuma das minhas denúncias terem sido
sequer julgadas. Fui obrigado a deixar o lugar onde morava com minha
família e só estou vivo até hoje porque tive o
apoio do então assessor especial da Secretaria de Segurança,
o tenente-coronel Romilton Correa. Ao tomar conhecimento do fato, ele
determinou que eu fosse escoltado por policiais do BOPE (Batalhão
de Operações Especiais), durante dois anos.
O grupo comandado pelo sargento Adilson existia desde 98 naquela região
e tudo indica que era uma das primeiras milícias a se desenhar
na cidade. Até hoje, o grupo sobrevive na região. A mão
frouxa e a falta de pressa por parte do Estado em sanar os problemas
da segurança pública fez com que o monstro crescesse.
Governos se sucederam e agora a bomba estoura .
Chegamos à era do “salve-se quem puder”. Na esteira
da incompetência do Estado, a bandidagem foi se aprimorando e
a polícia legalizada foi perdendo espaço. O fenômeno
da formação das milícias tem origem na abjeta política
de segurança pública, que que nunca existiu,. A milícia
se firma onde o Estado não se afirma, ela está presente
onde o Estado é ausente, tal como acontece com todas as organizações
criminosas.
É claro que queremos o combate ao crime, mas o Estado tem que
se fazer presente. Não podemos substituir um mal pelo outro.
A segurança não pode vir por um poder paralelo, mas da
forma institucional, via Estado e legalizada, conforme Constituição
Federal.
Miguel Cordeiro
Presidente da ASSINAP |