:: JORNAL ASSINAP - agosto / 07 - pág. 08
 
Profissional marcado para morrer
Pesquisa comprova que a falta de condições de trabalho mata mais policiais que a violência

Eles representam 60% do efetivo. São jovens praças entre 19 e 35 anos, com uma média de 5 a 6 de experiência nas corporações. Esse é o perfil dos PMs mortos nos últimos anos no Rio de Janeiro. O número é seis vezes maior do que os de outros profissionais do sexo masculino da mesma faixa etária.

No levantamento "Vitimização policial e segurança profissional"; coordenado pela pesquisadora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e Consultora da ONG Viva Rio, Haydée Caruso, um dado chama a atenção. A maioria das mortes acontece fora do horário de serviço. São acidentes de trânsito (30%), reação a assaltos (18%) e auto lesão (4,4%) ferimento com a própria arma. Uma dramática situação que deixa de ser apenas questão de segurança, para ganhar ares de problema de saúde pública.

O estudo, encomendado pela própria PM, analisou mortes e acidentes de policiais entre os anos de 1995 a 2005 e revela uma dura realidade que as corporações insistem em ignorar. Os baixos soldos, obrigaram os militares a se submeter a múltipla jornada de serviço e se transformaram na grande causa das mortes. Em grande parte, os acidentes que vitimam os soldados e cabos são colisões com pontos fixos ou atropelamentos, demonstrando que o principal fator para que eles ocorram é o cansaço. O percentual de praças mortos durante perseguições é bem mais baixo.

Além disso, a total falta ou o treinamento inadequado também matam. Quando reagem a assaltos, fora de serviço, os policiais estão desconsiderando os princípios básicos de segurança e fazendo exatamente o que pedem para os cidadãos não fazerem.

Quando a questão passa a ser os equipamentos usados a situação só piora. Um outro levantamento, coordenado pela pesquisadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, Jaqueline Muniz, mostra que a troca de armamentos - como a do revólver pela pistola, por exemplo - não acontece com o devido treinamento. Já as viaturas são consideradas pelo estudo como “carros pintados”, pois não são adaptados para o exercício da profissão. Uma vez acidentado, a demora no socorro é outro fator de risco. Vai de 40 minutos a até uma hora e meia.

Os pesquisadores apontam também a defasagem dos manuais de polícia usados pelas corporações do estado como fator de risco. São publicações do início dos anos 80, ou seja, normas com mais de vinte anos. Esse total quadro de descaso não é recente, pelo menos nos últimos 15 anos a situação só tem piorado. Era de se prever que alguma providência fosse tomada pelo governo, mas até hoje os orçamentos da PM não tem rubricas para saúde e segurança.
O resultado de todos esses desmandos é mais uma triste estatística: todo ano, cerca de 500 policiais não retornam ao trabalho. São PMs mortos ou incapacitados para o resto da vida.

“O diagnóstico está pronto, houve o debate com os policiais e sugestões para mudar o quadro foram apresentadas. O desafio do Cel. Ubiratan Ângelo é colocar em prática essas sugestões, diminuíndo o número de profissionais mortos na corporação”, diz Haydée.

 
Do alto da segurança
Coronel da PM apresenta projeto de torres de observação para conter violência

Há mais de dois meses, a população fluminense acompanha a ocupação policial no Complexo do Alemão, na Vila da Penha. Segundo o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrano, a operação ostensiva deve se estender para outras comunidades. Mas a pergunta que muitas pessoas fazem é: como conseguir manter a segurança nas comunidades depois da ocupação policial?

Uma proposta de policiamento para os morros do Rio de Janeiro já foi entregue a representantes do governo e do legislativo pelo Cel. Marcio Lobato Melo. O “Projeto das Torres da Cidadania” prevê a construção de uma estrutura de concreto reforçado, vidros espelhados à prova de bala e equipamentos de visão noturna onde serão instaladas câmeras de segurança que vão monitorar toda a comunidade.

Na base das torres serão oferecidos serviços voltados para a área social. Salas de aula, postos de saúde e representações de órgãos do governo como Cedae e Instituto Félix Pacheco serão instalados.

Os policiais não ficarão em contato com pessoas da comunidade para evitar desvios de comportamento. Parte dos agentes estará no Centro Gerador de Informações e Pronta Resposta, no topo da torre, acompanhando toda a movimentação da comunidade. Ao perceber qualquer ato suspeito eles acionam os outros policiais para agirem imediatamente.

“A idéia é manter os cidadãos protegidos. Os bandidos estarão vigiados 24 horas e a polícia também será supervisionada pelas câmeras” explica o Cel. Lobato.

Além dos equipamentos eletrônicos, o projeto prevê que as torres tenham um heliporto para facilitar ações mais rápidas e salvamentos. As instalações contarão ainda com holofotes para desestimular ações criminosas durante a noite.

“Queremos que a população se sinta segura e que o Estado esteja presente oferecendo os serviços que a comunidade precisa. Hoje, o que se vê são comunidades inteiras a mercê das facções criminosas, onde o professor, o carteiro, o médico da família não se sentem seguros para trabalhar”, diz o Cel que já realizou vários projetos de segurança e cidadania. O militar, entretanto, deixa clara a sua posição de como deve ser a atuação dos policiais. “A PM integra a comunidade quando mantém a ordem, previne o crime e até, quando necessário, mata o bandido”, conclui.